01/12/2009

Dias de melancolia

O mês de dezembro traz consigo um clima de confraternização e festejos. Paradoxalmente, uma leve e gostosa melancolia me atinge nesses dias, acompanhada de certo saudosismo. Vasculhando alguns velhos textos que publiquei nos jornais de Rio Branco, deparei-me com esta crônica, que representa bem esse estado de espírito, embora escrita há mais de uma década. É claro que a cidade, hoje, é outra, com o progresso, obras construídas, crescimento da população, aumento do tráfego, tumulto, mais assaltos... Nesse ponto, naquela época era melhor.
Fim de ano
O ano sufoca seus derradeiros suspiros sentenciados por dezembro. Vejo no rosto dos conhecidos que encontro uma feição diferente, um riso no canto dos lábios, como que a marcar uma sutil felicidade, prenúncio dos festejos que se aproximam. Mas não compartilho dessa alegria prestes a aflorar em gargalhadas, talvez ao redor de uma mesa com uma bela galinha de Natal e regada a cerveja, cidras e refrigerantes. É que por essa época uma tristeza impertinente me persegue.
Da janela do ônibus, respingada pelos chuviscos da chuva, vou percebendo a cidade lá fora, as diferenças entre os bairros (na maioria das vezes, uma condição de vida nada agradável), algo mais além de bueiros entupidos e calçadas carcomidas. No centro nervoso de Rio Branco, pessoas especulam o que comprar, disputando espaço entre si, umas apressadas, outras calmas como se estivessem curtindo uma terapia. Já os comerciantes procuram seduzir para vender. E ansiosamente promovem descontos, sorteios, brindes...
É mesmo assim: o agito de fim de ano em atrito com os efeitos dos tempos de crise. Mas eu falava da minha tristeza. Certamente produto de tudo o que meus olhos comprovam-me ao espírito. Do Terminal Rodoviário, beirando o rio até a cabeça (ou pés?) da velha ponte, vou percebendo o que me faz cinza. Não são os chamados dos vendedores de cigarro e camelôs, nem o movimento conturbado de gente indo e vindo, carros e caminhões buzinando. Também não é o prenúncio da chuva continuada, ambiente sombrio, trazido pelos ventos através de árvores e palheiras. São os mínimos detalhes que chamam a atenção e provocam grandes estragos, ou melhor, reflexões.
Aliás, o clima é propício aos pensamentos e reminiscências sobre o que se passou durante o ano. Primeiro, o olhar lançado ao rio Acre — está mais cheio —, lembrando o sofrimento dos alagados, ruas inundadas, lama e mau cheiro. Depois, um lapso feito relâmpago na memória — a vista aos pilares da ponte, praia onde chegaram a viver seres humanos, a que meninos de rua recorrem para cheirar cola. Mais adiante, na realidade de meus passos firmes no chão, topo com uma vendedora, senhora já, que me oferece um perfume. “É Café” — diz. Mas não quero comprar e ela insiste abaixando o preço mais de uma vez. “Por favor...” — suplica. Enfim, embora desconfiada do orgulho um tanto ferido, revela que precisa dos cinco reais, pois faz três dias que não almoça. Uma lágrima, mínima, começa a rolar pela sua face cansada. Minha carteira fica mais vazia. Em compensação, poderei ficar mais perfumado.
Entre minhas lembranças, a concretização seca e fria da tristeza construindo-se à minha frente. A vista parece embaçar, simultaneamente a uma ligeira aceleração do pulso. Um aperto, os passos mais apressados... Caminhando na contramão da Getúlio Vargas, lembrança do que já fora cinema. Perco-me em alguns velhos poucos filmes que ali havia assistido — encontro com Bruce Lee e cowboys. Tempo necessário para chegar à praça, ver Plácido de Castro e observar o frege dos estudantes, camisas riscadas, maisena e, num banco afastado, doses de rum.
Em frente à Prefeitura, um engraxate que costumo ver me aborda e balbucia a pergunta de sempre: “Loro, me arranja cinquenta centavo pra mim comprá um pão?”. E lembro uma piada que fecharia com uma boa resposta: “Não dou, senão tu não almoça”. Porém, digo estar sem grana. “Então arruma um passe...” — insiste ele, conforme o costume. Retiro do bolso um vale transporte e jogo-lhe ao peito. Ele me agradece com um “valeu”. E ao sair, lento e trôpego, quebra a rotina natural de nossas conversas: “Ei, Loro, feliz Natal!”.
Feliz Natal... Olho ao alto: céu escuro, nuvens que vagueiam baixas, várias tonalidades de cinza — chuva, tristeza, dezembro, feliz Natal... — palavras que vão ecoar no pensamento.

O Acre, dezembro de 1997.

14/11/2009

A obsessão pela beleza


Procusto é o nome de um malfeitor na mitologia grega. Ele capturava os viajantes para fazê-los caber exatamente numa cama de ferro. Para tanto, às vezes cortava-lhes ou esticava-lhes partes do corpo. Hoje, Procusto poderia ser símbolo da cirurgia plástica, de um modo bem menos doloroso, obviamente.
Afinal, cada vez mais, muita gente está preocupada em se encaixar num padrão de beleza. Para caber nesse padrão (o leito de Procusto, talvez), nem sempre bastam as academias de ginástica, as dietas e os produtos embelezadores. É preciso cortar aqui, esticar ali, retificar lá... Isso se tornou corriqueiro, graças ao avanço da medicina e da tecnologia. A busca da beleza e o culto à forma física realmente chegaram ao seu apogeu.
E por que essa incessante preocupação com a aparência? É fato que a mídia tem uma enorme influência sobre seu público. Então, não é de se estranhar que o padrão de beleza por ela veiculado seja a galinha dos ovos de ouro de muitas pessoas. Explicando melhor, homens e mulheres comuns estão cercados de anúncios que utilizam modelos esteticamente perfeitos. São as moças ou os rapazes que olham do alto dos outdoors, estão nas propagandas e novelas da TV ou nas páginas das revistas, expondo seus rostos magníficos e corpos airosos: a reprodução da beleza a ser desejada.
Assim, pessoas insatisfeitas com o próprio corpo desenvolvem uma ânsia de supervalorização da aparência. Há quem sustente uma verdadeira compulsão por exercícios físicos, de tal sorte que um dia sem a academia de ginástica chega a causar uma sensação de mal-estar. Outros sucumbem a duas doenças psíquicas há muito tempo amaldiçoadas pela sociedade: bulimia e anorexia. Nesse sentido, o culto à forma ultrapassa os limites da simples vaidade e torna-se escravidão: um vício do qual é difícil se livrar.
Outro aspecto é a associação comumente feita entre a beleza e o sucesso, mais uma influência midiática: precisa-se de boa aparência para ser bem-sucedido. Nesse sentido, mulheres siliconadas povoam a televisão, ganhando o aplauso da plateia, como que a induzir: pôr implantes de silicone nos seios, por exemplo, é o passaporte para uma carreira gloriosa. Vive-se, portanto, o desprezo pela inteligência, a desvalorização do saber. Basta vender beleza; não é necessário ter cultura.
Desfazendo-se esse equívoco, vê-se que é naturalmente possível conciliar essência e aparência, interior e exterior. Também é certo que o culto à forma jamais deve ser desprezado, posto ser face dessa mesma moeda. Oferece grandes vantagens se praticado de maneira saudável e moderada. Fazer uma lipoaspiração necessária ou uma dieta responsável, praticar atividades físicas regularmente, usufruir serenamente dos produtos de beleza são atitudes plenamente louváveis, pois melhoram a autoestima e a qualidade de vida das pessoas, reduzindo o estresse e evitando doenças.
Retomando a mitologia, outro personagem, agora um herói chamado Teseu, o que matou o Minotauro, aventurou-se numa perigosa viagem na qual enfrentou terríveis bandidos. Um deles era Procusto. Teseu o derrotou e, como castigo, o fez provar do próprio veneno. Falando figuradamente, derrotar Procusto representa a ponte que leva à destruição da cama de ferro. Dito de outro modo, a escravidão pela beleza deve ser evitada; o culto à forma sem excessos é saudável e só assim deve ser desejado.

11/11/2009

Shaneihu

Colegas do Curso de Cinema da Usina de Arte João Donato participaram do projeto Ponto Brasil, realizado pela TV Brasil, produzindo alguns curtas-metragens, entre eles, o Shaneihu.
O vídeo foi dirigido por Isabelle Amsterdam e Rose Farias. Tem como protagonista Shaneihu Yawanawa, nascido na terra indígena Yawanawa, Rio Gregório, município de Tarauacá. Ele veio para Rio Branco há dois anos para estudar. Atualmente, cursa Administração de Empresas. Cantar é sua paixão.

26/10/2009

Olhando a arte de Danilo de S'Acre

Lápis ou pincel na mão, o artista prossegue, a traços lentos. Concentrado em sua viagem interior, pacientemente cuida de minuciosos e imprescindíveis detalhes. O tempo se lhe torna abstração. Passam as horas do dia e da noite enquanto sua imaginação segue transfigurada completamente na tela. Ele, porém, não se perturba. Sabe que uma precipitação pode prejudicar todo o trabalho. Aos poucos e naturalmente, a obra vai adquirindo seus contornos, num fluxo iluminado que persistirá desde o esboço até a finalização.
É essa a minha impressão em algumas oportunidades que vi o artista-plástico acriano Danilo de S’Acre em ação. Seja na produção de uma ilustração, de um painel ou de um quadro, seu modo de ser é sereno, absorto às convulsões do tempo e do espaço. Mas o fazer artístico não se opera apenas na formalização do ato; não começa com o primeiro traço ou pincelada. Está na ideia, que é revolvida e amadurecida na memória. Aproveitando os momentos de inspiração, Danilo tem a ideia e as técnicas para representá-la através de sua arte. No entanto, não é apenas isso.
O grande poeta lusitano Fernando Pessoa, ao discorrer sobre arte no livro Páginas de doutrina estética, faz crer que para ser mesmo artista é necessário ter instinto, porque a invenção é um ato de instinto e deste provém a ideia. Danilo é desses que tem o instinto de artista, o que talvez explique a origem de suas criações: são-lhe instintivas e até mesmo inconscientes.
É notório que a matéria-prima para a construção da obra de arte o artista retira da realidade. Ele capta, interioriza, ultrapassa, idealiza a realidade. De personalidade subjetiva, o artista vê além do que se lhe apresenta aos olhos. E o instinto promove a invenção. Na obra de arte fica expressa uma tradução particular da sensação. Citando diretamente Fernando Pessoa: “A arte é apenas e simplesmente a expressão de uma emoção”. Contudo: “O artista não exprime as suas emoções. Exprime, das suas emoções, aquelas que são comuns aos outros homens”.
Nesse sentido, o trabalho artístico oferece a seu apreciador uma possibilidade para a identificação com o artista. Há uma relação de simbiose entre o artista, sua criação e aquele que a observa. Se o observador consegue compreender a linguagem do artista, significa que, por alguns momentos, transcende o plano da existência física e faz-se também artista. E é essa uma das finalidades da arte: elevar os sentidos acima de tudo que seja limitado e supérfluo.
O artista Danilo de S’Acre, à medida que espontaneamente escamoteia o sentido da obra, trava com o observador uma relação muito própria. O observador, confiante num tipo de impacto, recebe outro que não esperava, surpreendendo-se ao perceber a existência de significados muito diferentes, tal qual num “efeito colateral”. Assim, o sentido lhe prega uma peça e a relação é falseada; o artista indica-lhe o caminho para novas perspectivas.
Proporcionando-nos um desdobrar constante de interpretações, a arte de Danilo nos liberta da superficialidade. Perambular por seus detalhes, traços e cores é mais que simples deleite; é compreender que podemos enxergar além das aparências. Só arte assim é capaz de nos transportar numa viagem esfuziante de sinestesias, através da qual sentimos o que vemos e vemos o que não sentimos.
▪ O quadro “Cosmogenia acreana”, para uma degustação da arte de Danilo de S’Acre.

A propósito...

Danilo de S’Acre tem um blog. Chama-se Canibal Visual, que se explica pela legenda: “Sensações artísticas no funil cósmico”. Ou seja: só vendo mesmo. Para isso, clique

20/10/2009

Só para ser politicamente incorreto

Alguém faz uma proposta instigante ao modesto escriba:
— Por que não escrever algo politicamente incorreto?
— O quê, por exemplo?
— Talvez um texto que defenda o consumo do cigarro ou algo do tipo.
Então foi plantada uma semente. Eis que nasceu este pé de fumo, que não recomendo seja cultivado. Vejamos:
O cigarro traz grandes benefícios para a economia de um país. Gera milhares de empregos nas fábricas e plantações do tabaco, arrecada muito em impostos e, por mais estranho que pareça, ajuda a economizar na área de saúde. Pois a morte antecipada de fumantes propicia ao governo a redução de gastos com idosos e com o sistema de pensão e da previdência social.
Significa que o cigarro contribui para diminuir o número de pessoas que dão despesa na saúde pública, porque, muitas delas, se fumam, morrem antes do tempo. Com menos gente para cuidar, sobremodo na velhice, mais economia para os cofres públicos. Por outro lado, há de se destacar as vantagens que o fumo proporciona ao indivíduo. Entre as principais, estão os efeitos terapêuticos e psicológicos do tabaco: serve para acalmar os nervos, reduzindo o estresse e a ansiedade; ajuda a pensar melhor, aumentando a capacidade de concentração; consola nas horas de sofrimento, funcionando como um paliativo para as dores do espírito.
E não é somente isso. O cigarro emagrece, à medida que colabora para a diminuição gradual do paladar, tirando um tanto do sabor dos alimentos. Por isso, quando alguém para de fumar, tende a aumentar de peso. Além de contribuir para o controle da obesidade, um sério problema contemporâneo, o cigarro não embriaga, como o álcool. Se, ao invés de ingerir algumas cervejas, o indivíduo fumar uma carteira de cigarro e for dirigir seu automóvel, normalmente estará isento do risco de causar um grave acidente de trânsito. Já um bêbado...
Outra coisa: fumar é elegante. Existe uma satisfação estética na ação do fumante em tragar e soltar a fumaça com charme. Algumas formas de manifestação da arte exploram esse lado estético do tabagismo. O cinema é um exemplo sempre lembrado. O filme Casablanca, de Michael Curtiz, é uma citação clássica. Já na música, cita-se a ópera Carmen, de Bizet. Na literatura, os poemas de Mallarmé, entre outros. Lembro-me desses versos de “Vagabundo”, escrito por Álvares de Azevedo:
Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso!
Nessa estrofe, nota-se a expressão do personagem completamente despojado, que vive ao léu, livre das convenções sociais. No caso, o cigarro está associado à transgressão. E sempre foi ligado também a lutas de liberação sexual e política. Como se tudo isso não bastasse, fumar é legal. Ou seja, o cigarro é vendido livremente a qualquer pessoa, maior de idade, que queira consumi-lo. E não existe mais propaganda da indústria do tabaco. Trata-se de uma questão de escolha individual, de livre-arbítrio. O fumante sabe que o fumo é prejudicial à saúde. Se escolhe fumar, está por sua própria conta e risco.
A propósito, é interessante a conclusão do autor de Cigarros são sublimes, Richard Klein, crítico literário americano: “a própria vida é uma doença progressiva da qual só nos recuperamos postumamente. Se ter saúde é estar livre da doença, só se consegue ser saudável por meio da morte”. Eis aí: apenas algumas palavras filosóficas para encerrar o assunto.
▪ Humphrey Bogart, em Casablanca: glamour e nostalgia sob a fumaça do cigarro.

16/10/2009

Perigo na sala de aula


MacGyver era o personagem de série televisiva mais admirado pelos adolescentes nos anos 80. Protótipo do mocinho americano, ele conseguia se safar das situações mais ameaçadoras sem usar armas. Apenas com conhecimentos de química e física, o agente fazia uso de qualquer simples objeto para resolver problemas terríveis. Assim, com um clipe de papel, fechava o circuito de um míssil nuclear. Ou, com uma barra de chocolate, impedia o vazamento de ácido.
De qualquer modo, MacGyver sabia improvisar para sair de uma perigosa enrascada. Por isso, o seriado chamava-se Profissão: perigo, título que virou um ridículo clichê de referência a certas profissões, tipo — “médico: profissão perigo”, “jornalista: profissão perigo”, “professor: profissão perigo”... Considerando essa última referência, numa data festiva como o 15 de outubro, me surpreendi refletindo: a profissão de professor seria perigosa? Bem... Guardo na memória uns relatos escabrosos que me contaram pessoalmente alguns professores. É claro que isso seria exceção, não uma regra geral. Mas o clichê elaborado a partir do título da série de TV acaba se revelando oportuno e menos ridículo do que eu supunha.
Por exemplo, já ouvi falar de professor que foi feito refém, com escopeta apontada para sua cabeça, caso em que o filme de toda uma vida lhe passou pelo pensamento em questão de instantes (aí entrou na história sua habilidade de negociador, que acabou convencendo o algoz a deixar de lado a ideia nefasta que o motivou, tomando um rumo conciliatório e pacifista). Professor que teve que lidar com situações extremamente incômodas, como a de um aluno que chegou à classe confessando que acabara de atirar em alguém e que estava sendo procurado pela polícia. Professor que teve alunos acima de qualquer suspeita e que, posteriormente, estampariam as páginas policiais como traficantes ou assassinos. Professor que chegou a presenciar discussões grotescas e agressões físicas em plena sala de aula, passando por maus bocados. Professor que foi ameaçado de morte, tendo que viver muitos dias sob o domínio da aflição e do medo...
Enfim, são muitos os percalços da profissão. Essas vivências perigosas nas escolas não podem ser esquecidas. Não digo que aconteçam a toda hora. Mas, quando menos se espera, podem acontecer. Sangue-frio e raciocínio rápido ajudam nesses momentos de tensão. Pois o professor numa classe tem diante de si o desconhecido. Está perante uma clientela heterogênea, perante diversificadas almas, muitas vezes em conflito, e sujeito a qualquer tipo de situação, às vezes corriqueira, às vezes embaraçosa, às vezes perigosa demais. O importante é estar consciente de que tudo pode acontecer. Pensar na pior hipótese pode ser uma maneira de preparar o espírito para a eventualidade que possa surgir. E MacGyver pode ser a metáfora que represente uma forma de agir diante das adversidades: desarmado e com simplicidade pode-se anular um míssil nuclear. O problema é que, normalmente, a realidade não imita a ficção.