09/02/2010

Órfãos do Bigode

É o fim de uma era. O nosso ponto de encontro, o Bar do Bigode, localizado no centro da capital Rio Branco, não está mais com suas portas abertas. Uso esse eufemismo porque me recuso a dizer a palavra fechou (opa! falei). O bar morreu, mas seu proprietário, com a graça de Deus, está bem vivo. O Francisco Carlos, bom e velho Bigode, virou marajá (lembram dessa palavra? muito em moda na época de Collor). E foi no tempo desse ex-presidente que ele foi demitido da Eletronorte, ilegalmente. Até que, nos dias de hoje, mandaram-lhe novamente ao “trabalho”. Quer dizer, readmitiram-no. Culpa do barbudão de lá — o Lula lá.
Ao vislumbrar que ganharia um salário de marajá, o Bigode vai e fecha o bar, deixando para trás uma legião de órfãos. O Manuel, agrônomo da Secretaria de Desenvolvimento Agrário, quase que diariamente saía do trabalho e ia curtir o happy-hour no Bigas. Quando o bar fechou, passou uns dias vagando pelas cercanias, sem saber o que fazer. O professor Bosco confessa que até chorou. O Wagner “Zé do Limão” viajou para esquecer a tristeza. Imagino o que tantos outros fregueses assíduos estejam passando. Em que bares estarão andando o Cocada, o Adal “Cara-de-Onça”, o Mucura, o Dias, o Homem de Nazaré, o Danilo de S'Acre, o Álamo Kário?...
Sei que, um sábado desses, encontrei o Abel, o Tonhão, o Gustavo “Tarzã”, o Gato Rom-Rom, o Dote “Coalhada”, os professores Sandro e Bosco no bar do Gel (o Gel do Seu Chiquinho). Foi aí que um pensamento piegas percorreu-me o espírito: quando uma porta se lhe fecha, abrir-se-lhe-ão sempre outras (assim mesmo, gastando a mesóclise, pois essas reflexões vêm geralmente em tom epopeico).
Sinto dizer: o Bar do Bigode fechou. Tem nada não. Já fomos órfãos de tantos outros bares. Mas esse deixou profundas marcas em nossas histórias. Talvez seja um símbolo das mudanças que ocorrem em nossas vidas. Devemos acatá-las com ternura, porque o tempo é mesmo deste jeito: cíclico. Não iremos medir o tempo em “antes do Bar do Bigode” e “depois do Bar do Bigode”. As tempestades passam, retornam depois e assim vai. Que este seja o marco de outra era de realizações etílicas. Sempre haverá uma luz nos direcionando para um mar aberto de belas e novas possibilidades. Parece que os sinais da mudança estão impregnando os ares.

▪ Em tempo 1: essa é uma arte feita por Francisco Braga para celebrar o “Xarope do Semestre”, eleição que ocorria algumas vezes no Bar do Bigode. O retratado é o próprio dono do bar, com todo carinho.

▪ Em tempo 2: Prof. Sandro me envia email constando a frase:
Esta era a vida do Bigode, por isso fechou o bar — “Às vezes me sinto numa esteira rolante de aeroporto: andando em círculos e cercado de malas por todos os lados”.

07/02/2010

País dos contrastes

Ó, mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
Ó, de um lado este carnaval
Do outro a fome total

▪ Refrão da música “A novidade”, de Gilberto Gil, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone.
* * *
O Brasil apresenta grandes diferenças em muitos setores. Uma das mais marcantes, de cunho negativo, é a desigualdade social. Grosso modo, verificamos uma cruel divisão em duas classes. De um lado, os ricos, desfrutando das benesses que o dinheiro lhes proporciona; de outro, os pobres, sofrendo a mais terrível das privações: falta do que comer. Agravando essa situação estão os políticos, cujos interesses pessoais em geral acabam sobrepujando qualquer ação que se faria para beneficiar os menos favorecidos.
* * *
▪ Charge de J. Carlos II — 24º Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

16/01/2010

Palavras de Jodorowsky

Alejandro Jodorowsky, que, entre outras coisas, é cineasta e quadrinista, deixou belas palavras numa conferência sobre cinema realizada em 2007, no Centro Cultural Banco do Brasil. Vejamos um trechinho:

JODOROWSKY — Quando você é um verdadeiro artista, não faz imagens para provar ideias, você faz imagens porque elas surgem do fundo da sua alma e muitas vezes você nem sabe o que está fazendo. Há um célebre psicanalista francês, o Lacan, que disse: “Primeiro eu falo, depois eu penso”. Primeiro eu filmo, depois eu penso. Para mim, é muito difícil fazer filmes porque sempre me pedem um roteiro perfeito. Para mim, o roteiro é apenas o começo de um enorme processo criativo. Quando escrevo, estou num estado de transe e defino os detalhes, mas nas filmagens as coisas sempre mudam e a história vira outra coisa, porque acontecem coisas que ninguém espera. E na hora da montagem, tudo muda de novo. Quando eu ponho as músicas e a dublagem, volta a mudar. Geralmente, eu não uso as vozes dos atores. No “El Topo”, a mulher de preto é dublada por um homem, a jovem loira tem a voz de uma mulher de 50 anos. A mudança de vozes é uma maneira de se expressar. Enfim, tudo muda e eu nunca poderia ter o produto final planejado no ato de escrever o roteiro. Então, é difícil falar de cinema. Mas, vejam bem, todo ser humano tem uma filosofia. Cada um de vocês tem sua própria filosofia, a começar pela linguagem. O legado que a linguagem nos dá, é uma filosofia. Pensar em japonês não é a mesma coisa que pensar em inglês, ou francês, português, espanhol. Portanto, é uma grande limitação falar apenas um idioma, seu cérebro vai por um único caminho. Falar mais de um idioma enriquece sua visão de mundo. Além da linguagem, todos nós temos uma filosofia derivada da nossa mãe, da nossa família, da sociedade e da cultura. Agora, andando pelas ruas de São Paulo, me dei conta de que vocês não percebem a sorte que têm de serem brasileiros. Claro, sofrem com muitos problemas internos... a violência, a divisão das riquezas, a pobreza, etc. Mas é um país florescente, muito longe da angústia europeia. A Europa vive constantemente em angústia. O terrorismo, a guerra, a bomba atômica, a depressão, é tudo terrível. As pessoas andam de mau humor. Ontem fui num restaurante tomar uma canja de galinha e quase desmaiei com o barulho que havia em volta: “PARABÉNS PRA VOCÊ! NESTA DATA QUERIDA!” (gritando). Um barulho enorme! (risos). Digeri mal a galinha! Mas pelo que eu vejo na rua, há uma celebração muito forte da vida. Vocês têm sorte. Agora eu me pergunto, essa cidade enorme, para onde ela vai? Edifícios altíssimos, milhões de pessoas se mexendo de um lado para o outro, para onde isso vai? A primeira coisa que eu me perguntei, na juventude, era: “Para onde eu vou?” “De onde eu venho, para onde eu vou?”. E descobri que minha resposta era: “Eu venho de mim, e vou até mim”. Tenho que descobrir quem eu sou, o que é isso, o que penso da vida. Então, quando jovem eu já havia expressado essa filosofia no meu primeiro filme, “A Gravata”. Eu sequer pensava em cinema, só pensava em registrar pantomimas. Mas o tema era o de sempre: sou um corpo que tem um espírito ou um espírito que tem um corpo? Isso sempre foi o principal nas minhas buscas.

▪ CCBB, São Paulo, 06-12-2007 — transcrição de Daniel Salomão Roque.

15/01/2010

Flagrante

Assessor de deputado e um suplente fumam maconha numa sala abandonada da Assembleia Legislativa. Isso ocorre no curta-metragem dirigido por Daniel Rezende, intitulado Blackout. Veja:



06/01/2010

Garibaldi Brasil, o cronista

Os cronistas de nossa terra há muito cantam loas à querida cidade de Rio Branco. Reproduzo esta crônica escrita pelo mestre Garibaldi Brasil, do livro Mozaicos da cidade nascente, originalmente datado de 1950. Mas a edição da qual transcrevi data de 1993, produzida pelo saudoso ativista cultural Jorge Nazaré. Trata-se de uma edição em fac-símile, impressa na gráfica Poronga. Mantive a ortografia que consta na impressão. Observe o carinho com que Garibaldi fala da capital acriana, citando alguns de seus habitantes históricos:

Cidade amiga, no longo de tempo que medeiou entre aquela noite escura em que te deixei e a manhã ensolarada em que te revi, minha cidadesinha carinhosa, tanta cousa aconteceu...
Comigo e contigo. E com todo o mundo. Houve até uma guerra...
Destinos antogonicos, tu remoçaste e eu euvelheci! E como estás bela e como estás ampliada, vista do alto! Não te reconheceria se não fosse o riozinho teimoso e “amigo da onça” que te separa em duas...
O casarío novo e os belos edifícios se estenderam a perder de vista e daquela Rio Branco de ôntem só a memoria fixou o
close up sentimental da recordação...
E, então, revejo e revivo espiritualmente teus dias de vilazinha pacifica, pontilhados de pequeninos fatos tão queridos...
Tuas noites tranqüilas, as famílias provincianas dormindo e a boemia sôlta nas ruas, dêsde a 6 de Agosto ao Quinze, acordando as donzelas ao som do violão onimodo do português Maciste... O Chicarelli, cabaré de fama e tradições policiais, dôr de cabeça do delegado Continentino... O velho Pavilhão, onde nas tardes quentes eu espiava o rio e os pachorrentos sirios jogando gamão á sombra das mangueiras... E o barraco do Cine-Teatro Recreio, onde obtive as glorias do estrelato, levado pela mão amiga do Grijalva e onde paguei com o próprio sangue o meu tributo á arte insigne de Talma...
Fecho os olhos e na ciranda emocional vão passando os vultos queridos do Amanajós — inteligencia de escól do primoroso Juvenal, precursor do existencialismo nestas plagas, do elegante dr. Martin, Prefeito modelo, do Vavá Vasconcelos, jogador até na hora da morte e do velho Neutel, pioneiro que contava a historia da fundação da cidade. E dos meus amigos de outróra, hoje encanecidos como eu...
Como estás diferente e como mudaste tambem minha cidadesinha querida! Sempre te quiz e sempre te recordei. Nas minhas horas de calma, nas minhas raras horas de calma, em que me puz a relembrar as velhas cousas: a primeira namorada, o primeiro triunfo, as primeiras alegrias e os primeiros fracassos. Dou conta, hoje, de que houve, realmente, um ritmo desencontrado governando essas cousas. E as minhas velhas recordações, aquelas que pareciam mais afastadas e mortas são, hoje, as mais presentes no meu soliloquio interior...
Agora venho encontrar-te moderna e progressista. Teus novos edificios, tuas novas avenidas largas, tua formosa fonte luminosa, tua emissora, teu lindo aéroporto e o teu magestoso palacio néo-romano, tornaram-te faceira e atraente. Tens projeção e já falam de ti pelo Brasil a fora. Tens até
miss e o teu Douglas particular... E o que é melhor, minha cidade futurosa, porque daí vem tudo, tens o teu Governador exemplar...
Saúdo-te, pois, minha Rio Branco querida, unindo o passado ao presente para poder querer-te mais. Benza-te Deus!

▪ O velho Gari, como era chamado, também desenhava, como se vê na autocaricatura acima.