O mês de dezembro traz consigo um clima de confraternização e festejos. Paradoxalmente, uma leve e gostosa melancolia me atinge nesses dias, acompanhada de certo saudosismo. Vasculhando alguns velhos textos que publiquei nos jornais de Rio Branco, deparei-me com esta crônica, que representa bem esse estado de espírito, embora escrita há mais de uma década. É claro que a cidade, hoje, é outra, com o progresso, obras construídas, crescimento da população, aumento do tráfego, tumulto, mais assaltos... Nesse ponto, naquela época era melhor.
Fim de ano
O ano sufoca seus derradeiros suspiros sentenciados por dezembro. Vejo no rosto dos conhecidos que encontro uma feição diferente, um riso no canto dos lábios, como que a marcar uma sutil felicidade, prenúncio dos festejos que se aproximam. Mas não compartilho dessa alegria prestes a aflorar em gargalhadas, talvez ao redor de uma mesa com uma bela galinha de Natal e regada a cerveja, cidras e refrigerantes. É que por essa época uma tristeza impertinente me persegue.
Da janela do ônibus, respingada pelos chuviscos da chuva, vou percebendo a cidade lá fora, as diferenças entre os bairros (na maioria das vezes, uma condição de vida nada agradável), algo mais além de bueiros entupidos e calçadas carcomidas. No centro nervoso de Rio Branco, pessoas especulam o que comprar, disputando espaço entre si, umas apressadas, outras calmas como se estivessem curtindo uma terapia. Já os comerciantes procuram seduzir para vender. E ansiosamente promovem descontos, sorteios, brindes...
É mesmo assim: o agito de fim de ano em atrito com os efeitos dos tempos de crise. Mas eu falava da minha tristeza. Certamente produto de tudo o que meus olhos comprovam-me ao espírito. Do Terminal Rodoviário, beirando o rio até a cabeça (ou pés?) da velha ponte, vou percebendo o que me faz cinza. Não são os chamados dos vendedores de cigarro e camelôs, nem o movimento conturbado de gente indo e vindo, carros e caminhões buzinando. Também não é o prenúncio da chuva continuada, ambiente sombrio, trazido pelos ventos através de árvores e palheiras. São os mínimos detalhes que chamam a atenção e provocam grandes estragos, ou melhor, reflexões.
Aliás, o clima é propício aos pensamentos e reminiscências sobre o que se passou durante o ano. Primeiro, o olhar lançado ao rio Acre — está mais cheio —, lembrando o sofrimento dos alagados, ruas inundadas, lama e mau cheiro. Depois, um lapso feito relâmpago na memória — a vista aos pilares da ponte, praia onde chegaram a viver seres humanos, a que meninos de rua recorrem para cheirar cola. Mais adiante, na realidade de meus passos firmes no chão, topo com uma vendedora, senhora já, que me oferece um perfume. “É Café” — diz. Mas não quero comprar e ela insiste abaixando o preço mais de uma vez. “Por favor...” — suplica. Enfim, embora desconfiada do orgulho um tanto ferido, revela que precisa dos cinco reais, pois faz três dias que não almoça. Uma lágrima, mínima, começa a rolar pela sua face cansada. Minha carteira fica mais vazia. Em compensação, poderei ficar mais perfumado.
Entre minhas lembranças, a concretização seca e fria da tristeza construindo-se à minha frente. A vista parece embaçar, simultaneamente a uma ligeira aceleração do pulso. Um aperto, os passos mais apressados... Caminhando na contramão da Getúlio Vargas, lembrança do que já fora cinema. Perco-me em alguns velhos poucos filmes que ali havia assistido — encontro com Bruce Lee e cowboys. Tempo necessário para chegar à praça, ver Plácido de Castro e observar o frege dos estudantes, camisas riscadas, maisena e, num banco afastado, doses de rum.
Em frente à Prefeitura, um engraxate que costumo ver me aborda e balbucia a pergunta de sempre: “Loro, me arranja cinquenta centavo pra mim comprá um pão?”. E lembro uma piada que fecharia com uma boa resposta: “Não dou, senão tu não almoça”. Porém, digo estar sem grana. “Então arruma um passe...” — insiste ele, conforme o costume. Retiro do bolso um vale transporte e jogo-lhe ao peito. Ele me agradece com um “valeu”. E ao sair, lento e trôpego, quebra a rotina natural de nossas conversas: “Ei, Loro, feliz Natal!”.
Feliz Natal... Olho ao alto: céu escuro, nuvens que vagueiam baixas, várias tonalidades de cinza — chuva, tristeza, dezembro, feliz Natal... — palavras que vão ecoar no pensamento.
▪ O Acre, dezembro de 1997.
Da janela do ônibus, respingada pelos chuviscos da chuva, vou percebendo a cidade lá fora, as diferenças entre os bairros (na maioria das vezes, uma condição de vida nada agradável), algo mais além de bueiros entupidos e calçadas carcomidas. No centro nervoso de Rio Branco, pessoas especulam o que comprar, disputando espaço entre si, umas apressadas, outras calmas como se estivessem curtindo uma terapia. Já os comerciantes procuram seduzir para vender. E ansiosamente promovem descontos, sorteios, brindes...
É mesmo assim: o agito de fim de ano em atrito com os efeitos dos tempos de crise. Mas eu falava da minha tristeza. Certamente produto de tudo o que meus olhos comprovam-me ao espírito. Do Terminal Rodoviário, beirando o rio até a cabeça (ou pés?) da velha ponte, vou percebendo o que me faz cinza. Não são os chamados dos vendedores de cigarro e camelôs, nem o movimento conturbado de gente indo e vindo, carros e caminhões buzinando. Também não é o prenúncio da chuva continuada, ambiente sombrio, trazido pelos ventos através de árvores e palheiras. São os mínimos detalhes que chamam a atenção e provocam grandes estragos, ou melhor, reflexões.
Aliás, o clima é propício aos pensamentos e reminiscências sobre o que se passou durante o ano. Primeiro, o olhar lançado ao rio Acre — está mais cheio —, lembrando o sofrimento dos alagados, ruas inundadas, lama e mau cheiro. Depois, um lapso feito relâmpago na memória — a vista aos pilares da ponte, praia onde chegaram a viver seres humanos, a que meninos de rua recorrem para cheirar cola. Mais adiante, na realidade de meus passos firmes no chão, topo com uma vendedora, senhora já, que me oferece um perfume. “É Café” — diz. Mas não quero comprar e ela insiste abaixando o preço mais de uma vez. “Por favor...” — suplica. Enfim, embora desconfiada do orgulho um tanto ferido, revela que precisa dos cinco reais, pois faz três dias que não almoça. Uma lágrima, mínima, começa a rolar pela sua face cansada. Minha carteira fica mais vazia. Em compensação, poderei ficar mais perfumado.
Entre minhas lembranças, a concretização seca e fria da tristeza construindo-se à minha frente. A vista parece embaçar, simultaneamente a uma ligeira aceleração do pulso. Um aperto, os passos mais apressados... Caminhando na contramão da Getúlio Vargas, lembrança do que já fora cinema. Perco-me em alguns velhos poucos filmes que ali havia assistido — encontro com Bruce Lee e cowboys. Tempo necessário para chegar à praça, ver Plácido de Castro e observar o frege dos estudantes, camisas riscadas, maisena e, num banco afastado, doses de rum.
Em frente à Prefeitura, um engraxate que costumo ver me aborda e balbucia a pergunta de sempre: “Loro, me arranja cinquenta centavo pra mim comprá um pão?”. E lembro uma piada que fecharia com uma boa resposta: “Não dou, senão tu não almoça”. Porém, digo estar sem grana. “Então arruma um passe...” — insiste ele, conforme o costume. Retiro do bolso um vale transporte e jogo-lhe ao peito. Ele me agradece com um “valeu”. E ao sair, lento e trôpego, quebra a rotina natural de nossas conversas: “Ei, Loro, feliz Natal!”.
Feliz Natal... Olho ao alto: céu escuro, nuvens que vagueiam baixas, várias tonalidades de cinza — chuva, tristeza, dezembro, feliz Natal... — palavras que vão ecoar no pensamento.
▪ O Acre, dezembro de 1997.




